Décio Molan foi rádio telegrafista durante a Segunda Guerra Mundial. Chegou no ABC depois da guerra e morou em Santo André. |
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Depoimento de DÉCIO MOLAN, 64 anos.
Universidade de São Caetano do Sul, 7 de julho de 2003.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Vilma Lemos e Eleonora Chagas Mendes.
Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pinceratoe MárcioPincerato.
Pergunta: Eu queria que o senhor explicasse um pouquinho do local onde o senhor nasceu, do Estado onde o senhor nasceu e do relacionamento, quantos irmãos ainda estão vivos.
Resposta:
Eu sou nato de Jaú, estado de São Paulo, uma família composta por sete irmãos, quatro mulheres e três homens, sendo dois já falecidos. As irmãs são vivas, duas casadas e duas solteiras. Saí de Jaú para a incorporação ao exército em 1940. Fiz a papelada, o exame médico foi feito em Campinas. Posteriormente, voltei a Jaú e o meu destino seria o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, fiz o aquartelamento de São Cristóvão, permanecendo lá pelo menos 90 dias. A certeza foi o nosso embarque para o norte a fim de fortalecer as fronteiras do nosso país. Atravessando a fronteira de Alagoas com Pernambuco, em seguida, nós seguimos para Fernando de Noronha. Em Fernando de Noronha fiquei um mês, mais ou menos. Voltei para Maceió, capital das Alagoas. Permaneci em Maceió por praticamente três anos, conheço Maceió quase de ponta a ponta. E em seguida, foi feito acampamento em diversas cidades próximas de Maceió, Leonardo, Anarquias, Capela, Paineira do Vento, São Francisco, diversas cidades em que eram compostos a grupos do segundo e do quarto ramo, autos-transportáveis, canhões puxados por caminhões. Posteriormente, a gente foi seguindo a tropa para o Maranhão, Piauí, Ceará, diversas capitais do Brasil. Seguindo, fomos transferidos para o quinto escalão, segundo grupo de escalão dos expedicionários. Como a gente praticava um pouco de esporte, então, viviam aqueles que eram privilegiados para a guerra na Itália e os demais permaneciam aquartelados em Maceió, e assim aconteceu comigo. Eu gostava de futebol, de vôlei, de basquete e diversos esportes, e esses elementos ficam sempre protegidos pelos capitães e pelos coronéis, comandantes do grupo. Em seguida, nós fomos disputar uma partida no campo do campeonato da sétima região militar. Fomos os segundos colocados e nós ganhamos as medalhas de bronze e de prata e os demais ganharam a medalha de ouro como o primeiro colocado. Voltamos para a nossa sede que era Maceió e continuamos o nosso serviço, serviço de acampamento, serviço de telegrafia. Eu fui indicado para fazer um curso em Caxandá, Recife, a fim de fazer curso de telegrafista. Lá permaneci por 6 meses, incorporei novamente voltando para a capital de Alagoas, que era Maceió.
Pergunta: Sr. Décio, antes de a gente entrar na guerra, eu gostaria que o senhor nos informasse acerca da sua escolaridade.
Resposta:
Eu fiz o fim do grupo e fiz uma parte do comércio. Mas eu não era muito de estudar, não gostava muito e parti para um outro negócio, parti para uma parte industrial em Jaú. Era uma indústria de artefatos de materiais de limpeza, e permaneci lá durante mais ou menos 20 e poucos anos na parte industrial.
Pergunta: E o que o senhor fazia?
Resposta:
Materiais de limpeza, vassouras, escovas, brochas, pincéis, rodo, tudo o que era material de limpeza. Em seguida, depois de todo esse negócio, vim para São Paulo, e vim morar na Pompéia, na Rua Raul Pompéia. Ali, eu e mais dois irmãos comparamos um posto de gasolina e, em seguida, comparamos o segundo e fomos distribuindo o serviço entre os três irmãos. Nós vendemos e pegamos algum dinheiro.
Pergunta: Quando o senhor era jovem, lá em Jaú, mudando para São Paulo, que atividades o senhor tinha lá, tinha cinema, teatro?
Resposta:
Não, como era uma cidade industrial, na parte noturna a gente ficava num clube do qual eu era presidente. Fui presidente do Grêmio Paulista de Jaú, durante dez anos. A gente fazia bailes, o salão era alocado para um grupo teatral também, embora eu tivesse um grupo teatral que chamava Sempre Sorrindo, era o nome do nosso grupo teatral nosso lá. E de vez em quando éramos chamados para fazer apresentações em Bauru, em Marília, em Tupã. Então saía, alugava-se um ônibus e saía com a turma. Era bom, era um divertimento fora de série, e era uma mistura de gente que não tinha tamanho. Mas era um negócio muito interessante porque era uma parte cultural nossa, e eu tinha também no clube um grupo de cantores e gostávamos de fazer serenatas, às vezes, nas noites de sábado, saíamos em oito, dez com harmônica, com violão, com bandolim, cavaquinho, tudo isso para fazer a serenata; e era uma coisa muito interessante porque a gente se divertia muito e era aquela gozação.
Pergunta: E quando o senhor foi presidente, que tipo de bailes vocês faziam?
Resposta:
A gente fazia o baile da Chiquinha, fazia o baile do Café, fazia o baile das Rolinhas, depois tinha também o baile da passagem de ano, o Reveillon, que era um baile muito animado, muito disputado. E fora disso, a gente tinha as domingueiras, a cada quinze dias a gente tinha uma domingueira, e naquela época Jaú tinha duas boas orquestras, a Orquestra Continental e a Orquestra Capeloza. Duas orquestras boas daquela época se revezavam para fazer apresentações e o público percebia. O tempo foi passando, e depois de muito tempo veio a chamada para o exército e eu precisei me incorporar. Larguei tudo aquilo que tinha feito, eu deixei minha família e fui embora para viver quatro anos sem poder ver meus irmãos, minhas irmãs, meus pais, porque a gente estava longe e para vir era só de avião porque a distância que eles estavam era de seis dias. Para gastar um dinheirão para ficar um dia em casa e voltar no dia seguinte, não era compensador. Então, realmente a gente não fazia isso daí.
Pergunta: Esses bailes que tinham, do Café, explica para gente o que eram e depois como é que tinha essas orquestras e de onde elas vinham?
Resposta:
O baile do Café é uma homenagem que a gente fazia na parte de Jaú que era o setor cafeeiro, então, a gente fazia aquele baile e enfeitava todo o salão com mudinhas de café e algumas penduradas em volta do salão e aquilo era uma homenagem à própria cidade, que era Jaú. A orquestra, todas as duas que eu citei, eram compostas por elementos de Jaú.
Pergunta: E o baile da Chiquinha?
Resposta:
O baile da Chiquinha era organizado por uma porção de moças, elas se organizavam e tinha até as costureiras que faziam os vestidos adequados ao corpo da moça e faziam com ela um baile, como o baile do Café também.
Pergunta: Por que se chamava baile da Chiquinha?
Resposta:
Porque todo mundo vinha vestido de chita, por isso era chamado de baile da Chiquinha.
Pergunta: O senhor disse que o senhor se incorporou ao exército?
Resposta:
Eu me incorporei ao exército e o meu primeiro exame foi em Campinas. Posterior, eu fiz o segundo exame em Itu e lá me incorporei, onde permaneci por praticamente dois anos. Depois, eu segui para o Rio, e lá fiquei uma temporada acantonado em São Cristóvão e depois passamos para um navio que ficava num estuário lá no Rio de Janeiro. E a gente ficava lá dentro, esperando para partir para o norte porque a nossa ambição era guarnecer fronteira. Fronteira do Ceará, fronteira de Alagoas, fronteira de Pernambuco. Era desfruto da tropa um pouco em cada fronteira sob os seus comandantes, capitães, coronéis e os demais também, e a gente ficava ali, fazia instrução, fazia educação física, fazia armamento também e a minha missão era mais o rádio-telegrafista, mas tinha que estar sempre junto com o pessoal que acampava, que era para fazer o serviço fora donde vinha parte de fila, essas coisas todas que estavam a mais ou menos 40, 50 quilômetros de distância.
Pergunta: Quantos anos o senhor tinha?
Resposta:
Naquela época, eu devia ter mais ou menos quando, eu saí... Eu fiz vinte e um anos.
É uma coisa muito gostosa, muito aprazível, eu sempre gostei muito de sair. Fiz um curso lá e não pude completar porque depois começaram a formar os escalões para seguir para a Itália e foram chamados. Eu fiz mais ou menos oito meses de curso. O curso completo seria de um ano, mas eles me tiraram antes, mais por causa de esportes, essas coisas todas.
Pergunta: Esse curso de telegrafia era como?
Resposta:
Naquela época era o alfabeto Morse, pá-pá-pá-pi-pi-pá-pá-pá-pi-pá-pi-pi-pá-pi-pi-pá (imita o ruído dos códigos), então era tudo transmitido em códigos, porque a idéia é de que você não pode transmitir nem em letras e nem em números, então, códigos formados por letras e números que são proibidos por não perceber que você está transmitindo, e a nossa transmissão, que era formada por uma estação de rádio tocada à bateria alcalina, quatro baterias alcalinas ligadas à estação para fazer a transmissão. O alcance máximo era 70 quilômetros, mas isso não pegava o som.
Pergunta: Alguém interceptava as mensagens?
Resposta:
Interceptava, mas não se tinha muito conhecimento do que eles diziam, do que eles viviam transmitindo, compreende? Raramente, a gente pegava algumas palavras cruzadas, mas era difícil. Como eles tinham o sistema deles de código, nós tínhamos outro sistema completamente diferente do deles, para não haver coincidência de código.
Pergunta: O senhor acha que espionagem era impossível?
Resposta:
Era difícil, a espionagem é uma coisa comum na época de guerra, em todos os setores; tanto é que a gente fez esse serviço na Paraíba, a gente apreendeu diversos espiões lá, alemães. Foi até um sucesso aquilo lá para nós naquela época porque eles estavam bem camuflados, eles se vestem diferentes de tudo, você nem percebe.
Pergunta: E como o senhor viu esses espiões?
Resposta:
Por indicação de pessoas que diziam que achavam a pessoa estranha que falava diferente e, às vezes, se vestiam de um jeito, no outro dia já punha outra roupa, isso modificava completamente. Então, você não tem mais ou menos, a própria origem dele é o que identifica. Então a gente ficava na cola deles. Revezavam cinco ou seis soldados. E eles iam para lá, a gente disfarçava e os seguia também. Esse padrão de coincidência.
Nós fomos fazer um congresso de radiotelegrafistas e fomos com diversos radiotelegrafistas, uma espécie de um invento e conhecimentos mais progressivos do que passava a radiotelegrafia daquela época. Hoje tudo está mudado, está completamente diferente. Não existe mais o meu Morse, não se transmite mais, raramente se usa.
O que determinava era vontade do país, uma vontade de ir lá e fazer alguma coisa em prol do país, ser um patriota. É evidente que a gente sentia, ficava num emprego pesaroso, de deixar família, de deixar amigo, de deixar tudo atrás e seguir em frente na vida e servir a pátria, mas era uma missão que a gente tinha obrigação de fazer.
Pergunta: O senhor não embarcou lá?
Resposta:
Não embarquei, eu fui ao segundo grupo de escalão e fui no sexto escalão, mas junto a esse escalão seguiram para a Itália, cada um tinha acantonado aqui e guarnecendo as fronteiras.
Pergunta: Mas qual era a missão?
Resposta:
A nossa missão naquela oportunidade era guarnecer as fronteiras com metralhadoras, com canhões, com helicópteros, com estações de rádio, com tudo isso formalizando.
Pergunta: Qual era a visão para a guerra aqui no Brasil com reflexo na Segunda Guerra?
Resposta:
Eu acho que para quem veio sobra uma porção de coisas porque o sujeito foi lá e combateu e tornou-se um herói. Foi um defensor da democracia, porque após a guerra é que vem a democracia e nós fomos o espírito pioneiro da democracia e os que vieram, muito mais. Nós menos, porque ficamos aqui no Brasil, mas eles que estiveram na frente de combate...
Pergunta: E os cidadãos comuns que viviam aqui, os americanos comuns?
Resposta:
Eles sempre ficavam meio amedrontados. Por exemplo, lá em Alagoas havia um percalço que os globos de Alagoas, de Maceió eram todos pintados de preto na parte de cima para não dar muita visão aos aviões. E o pessoal sempre ficava ali, mas encorajavam a gente, apesar dos pesares todos eles ficavam encorajando a gente: Nós vamos ganhar essa guerra, vamos ver isso, isso, nós vamos ver com outras nações. E a gente ficava naquele bem-estar com aquele incentivo que eles davam a gente.
Pergunta: Como era a comida das pessoas?
Resposta:
A nossa comida, quando chegamos na parte norte, a gente estranhou demais porque a comida era muito apimentada, muito diferente da comida da parte do sul. Depois de uns quinze dias foram mudando até a gente se adequar ao tempero da comida deles lá.
Pergunta: O senhor pode observar as pessoas comuns sobre racionamento da guerra?
Resposta:
A gente não observava esses detalhes, não.
Pergunta:
E os seus familiares reclamavam, tinham correspondência?
Resposta:
Uma vez por semana a gente distribuía correspondência, então era uma festa e quem não recebia carta ficava triste, daí a gente ia lá e incentivava: Não, na próxima semana você vai receber, a família vai dar notícia, não fique triste, não. E realmente, estar distante da família é um negócio que pesa para a gente, o coração da gente balança, mas, a gente sempre vive assim, sempre melhorando com as cartas que recebe. Sabendo que a família vai bem, que tudo vai indo bem, então a gente fica até acomodado.
Na parte norte, é uma coisa constante. Após o nosso rancho, sobrava sempre comida: arroz, feijão, jabá, algumas vezes um pouco de repolho. Formava aquela carreira de garotos e garotas e a gente distribuía para eles toda a comida que sobrava dos soldados, e aquilo para eles era uma festa. No caso da parte muito pobre, lá em São Francisco, esqueço o nome dela no momento, e João Cacique também era muito pobre. Tinha uma cidade mais ou menos, uma cidade onde se faz a tecelagem de toalhas. E em muitas cidades pequenas era aquele desespero por comida, tinha gente que não tinha o que comer. Plantar, eles plantavam pouco, e não tinham muita alimentação.
Pergunta: Quantos anos o senhor tem hoje?
Resposta:
Hoje, eu vou completar 83 anos.
Pergunta: E o senhor se casou com quantos anos?
Resposta:
Eu me casei com 32.
Pergunta: Depois da guerra?
Resposta:
Depois da guerra. Não, depois da guerra, porque a guerra foi em 39.
Pergunta: E como o senhor namorou? Como foi o namoro?
Resposta:
Eu me casei em dia de reis, em 1960, parece.
Pergunta: E como era namorar na sua época?
Resposta:
O namoro naquela época era muito mais sério do que hoje. Hoje o namoro é muito mais à vontade, é namoro de bagunça. Mas a gente namorava, s a na terça, quinta, sábado, domingo, era o dia que a gente saía, fora disso a gente ficava em casa. Televisão naquela época era triste, muito pouca gente tinha televisão.
Pergunta: O que o senhor ouvia no rádio?
Resposta:
No rádio, em casa pegava as novelas, novelas na rádio São Paulo, novela na Rádio Nacional, então, nós ficávamos calibrados ali.
Pergunta: E essa novelas o senhor também assistia?
Resposta:
Assistia. Às vezes, a gente virava um pouco para pegar um pouco de música. Eu gostava muito de música.
Pergunta: Que música fazia sucesso?
Resposta:
Naquela época, tinha Silvio Caldas, Francisco Alves, Humberto Alves, Emilinha Borba, Lucinha Batista, Orlando Silva, o cantor das multidões. E tinha muitos cantores bons. Eu me recordo bem como se fosse hoje, quando o Orlando Silva veio a Jaú foi um sucesso tremendo, aquela música então, todo mundo cantou. Queriam abraçar o cantor, foi um sucesso fora do sério.
Pergunta: O senhor lembra de alguma música?
Resposta:
Deixe-me ver se lembro alguma coisa dele. Tinha também a Araci de Almeida que cantava: Nunca pensei que tu fosses assim / que me fez sofrer e ainda sorriu de mim / isso serviu para me ensinar / por Deus eu juro, que nunca mais vou lhe amar / vivendo a vida é que se aprende a viver / não me incomodo de pagar caro à lição / mas foi assim que eu consegui compreender / como é tocar o seu coração. (canta)
Pergunta: Como era a vida em família, pai, avô?
Resposta:
Eu perdi o meu avô muito cedo, mas a minha família era muito unida, muito calma, não havia choque entre irmãos e irmãs, nada. Eu tinha uma irmã mais velha que ela gostava e era doida por um baile, e minha mãe, quando tinha baile, se eu não a levasse, ela não ia. E quando ela ia, eu falava: Bom, eu vou levar você, mas quando for 1h30min, nós voltamos. Ela pegava e se escondia no toillet, então eu olhava daqui e olhava de lá e ela s a dançando com o par dela. Mas era assim, ela era apaixonada por baile, era demais. Eu gostava de baile, mas não era assim, muito chegado.
Pergunta: Tinha cinema na sua época? Quem fazia sucesso na sua época? Que tipo de filme?
Resposta:
Tinha cinema. Sucesso no cinema naquela época era filme americano, filmes mais de cowboy, essas coisas, e tinha filmes também de um que fazia papel de caipira... Mazzaropi. Tinha filmes do Mazzaropi também e tinha filmes em que aparecia Orlando Silva, Francisco Alves, Lucinha Batista, Emilinha Borba, toda essa turma.
Pergunta: O senhor morou em Santo André?
Resposta:
Eu saí de Jaú e vim para São Paulo. Em São Paulo nós comparamos um posto de gasolina, eu e mais dois irmãos. Depois, saindo de lá, nós fomos para Ribeirão Pires. Compramos um posto de gasolina no centro de Ribeirão Pires e um em Mauá. O do centro não tinha lavagem e o outro lavava os carros, lubrificava, fazia todo o serviço. Mas, depois nós montamos uma indústria de metalúrgica só no setor de alumínio, escada de alumínio, cadeira de alumínio, mesinha para servir lanche de alumínio, tudo escalotinado de abrir e fechar. E assim foi a vida da gente. Depois faleceram os dois irmãos muito perto, que eram meus sócios, e eu não tinha condição nem psicológica e nem física para tocar a indústria, então acabei vendendo e encerrando a minha atividade nesse setor. Depois desse setor, eu passei ao setor de ensino, de madeira, aqui na Rua Domingo, 555, na AMA, Associação dos Excepcionais. Fiquei ali, tinha nove alunos e dava aula de madeira, fazia artefatos de madeira, fazia mesinha, fazia casinha, fazia bandeja, todas essas coisas para crianças de 10 anos e me dei bem porque o excepcional, não o de alto grau, o de médio grau, é muito meigo, muito dócil, inclusive você se apega a ele. Eu, quando saí de lá, me senti até mal. Como naquela época estava com uma idade avançada, acharam por bem me dispensar e colocar uma pessoa jovem no meu lugar e a pessoa jovem que tivesse um pouco mais de traquejo na coisa mais moderna, mais sofisticada. Só que não tem nada. Para mim, sair foi difícil e saio com bastante pesar e com dor no coração porque esses meus alunos são meus filhos, eu adorava eles e acabei saindo. Depois me aposentei de 79 para 80.
Pergunta: Como o senhor observava que os brasileiros tratavam os estrangeiros aqui, ou depois da guerra, os alemães, os descendentes de italianos?
Resposta:
Isso se tornou mais uma normalidade. A gente ficou como se fossem os companheiros da gente, nada de a gente sair em choque com eles porque serem alemães, americanos ou italianos. Porque a minha origem é italiana, meu pai veio da Itália com 7 anos, e eu era contra o ato do Mussolini, achava que eles estavam completamente errados, como foi mesmo isso que aconteceu, mas nem por isso a gente acaba entrando em choque porque o outro era de nacionalidade diferente. A gente vivia sempre com harmonia.
Pergunta: Qual foi o sinal que o senhor recebeu na guerra?
Resposta:
Quando eu saí do Rio e me deram ordem para embarque, fiquei estremecido um pouco. Eu sabia que eu ia, mas não sabia o meu destino ao certo. E a gente cantava lá: No parque leva saudade / quem fica saudade tem (canta). E ia cantando todas essas músicas, mas foi um momento meio crítico para mim e eu não sabia ao certo meu destino. Eu sabia que ia guarnecer as fronteiras. Da fronteira avante eu não sabia o futuro meu. E você ficava automaticamente preocupado com os acontecimentos futuros.
Pergunta: O senhor tinha a informação da guerra, mas e sobre a sua emoção, o seu sentimento em relação a fatos da história, com as greves, os movimentos?
Resposta:
Isso para mim foi um pesadelo porque dentro a parte industrial, o patrão é um elemento incomunicável. Na minha indústria de média para grande. Então, o sindicato mandava muito, porque muitos elementos são associados ao grupo. Então, eles querem chegar na sua indústria, às vezes, fazer coisas que eu fiquei um tanto estremecido com isso, tanto é, que quando eu me aposentei eu precisava de uma declaração do Sindicato dos Metalúrgicos, e para mim foi triste tirar, porque quando eles vieram que fazer eleição lá na minha fábrica, eu não os deixei entrar dentro da fábrica, eles queriam ficar no salão da fábrica, eu não deixei, mandei fazer no estacionamento e eles marcaram. Eu fiquei meio chocado porque, ao final de contas, era um patrão que estava em prol dos empregados.
Eu acho que a virada foi boa porque a gente sair de um negócio que veio não tão legal e partir para um melhor automaticamente você se alegra com isso. Porque aquilo foi indo, foi indo até que está hoje a televisão, que é uma clareza espetacular.
Pergunta: O senhor tem alguma recordação do golpe militar de 64?
Resposta:
Aquilo foi triste, em 64 foi triste.
Pergunta: O senhor lembra de acontecimentos?
Resposta:
Mas, desse regime havia ali os militares que não gostavam do regime que estavam levando pelo Getúlio Vargas e foi João Goulart, então, resolveram dar o golpe e foi até uma boa porque o pessoal não acredita, acha que era muito duro, mas no tempo dos militares não havia muita coisa, não havia roubo, não havia nada disso, o negócio era: escreveu, não leu, o negócio desse, pegavam o camarada. Tanto é que se vê, fizeram e até extrapolaram um pouco porque muita gente até desapareceu depois, mas eu acho que o governo militar do Figueiredo, do Castelo, até os outros que foram também foi um pouco morno, foi ótimo porque a gente tem lá dentro, porque naquela época a situação era um pouco mais confortável que hoje, não havia tanta coisa ruim, tanto perigo. Hoje você sai, mas não sabe se volta.
Pergunta: O senhor tem alguma impressão do Getúlio Vargas?
Resposta:
A impressão que eu tenho do Getúlio Vargas, a única que eu tenho foi a lei trabalhista. O resto ele tinha os capangas dele lá e mandava fazer como eles queriam e como não queriam.
Eu vivi e eu estou muito constrangido de tudo o que passou naquela época, como patrão, mas qualquer coisa que havia, chegava lá e mandava parar a indústria, tudo parava e se não parasse, eles brigavam, quebravam, faziam tudo isso.
Pergunta: O senhor não participou de nenhum movimento político?
Resposta:
Eu fui candidato a vereador pela UDN, em 1945. Eu fui candidato a vereador e o prefeito de Jaú era José de Magalhães de Almeida Prado, chamado de Zezinho, foi do partido dele que eu fiz a campanha lá.
Pergunta: Ele se elegeu?
Resposta:
Fiquei de suplente, porque naquela época precisava de um mil e quinhentos votos no mínimo e eu fiz seiscentos e não chegou a setecentos.
Pergunta: Diga-me uma coisa, em relação à política, em termos nacionais, o senhor tem lembranças da
Resposta:
Eu acho que tudo isso tem um progresso, a morte do Kennedy, nos Estados Unidos, porque ele não quis dar aumento do aço, uma série de coisas, então eles eliminaram para se vingar e matar o Kennedy.
Pergunta: O senhor sabe o que fizeram com as mulheres dos combatentes, como elas se mantiveram?
Resposta:
Hoje, com referência à parte da viuvez dos ex-combatentes, elas estão bem, têm um trabalho bom e são autônomas. Elas fazem dos lares o que elas querem, se bem que, às vezes, os filhos ficam em cima da mãe porque ela recebe bem, porque isso, porque aquilo, porque elas num modo geral, todas, tanto é que hoje na nossa unidade de ex-combatentes tem mais viúva do que homens. As viúvas são maioria.
Pergunta: Como o senhor vê o movimento das Diretas Já?
Resposta:
Foi positivo. Eu acho que foi uma boa porque a democracia é um regime em que você se expande, você fica mais à vontade, porque na ditadura você não podia falar. Eu estava numa ocasião na Argentina, no tempo do Perón, eu sei que queriam me prender logo. Naturalmente, tinha falado alguma coisa do governo, do Perón. Chegaram duas pessoas e já queriam me levar. Então, era o regime que patrulhava. Era meia dúzia de elementos no mando e tinha que fazer o que eles queriam. Você não tem liberdade, você não tem ação, pena que tinha muita gente capacitada e que naquela época não podia fazer nada, porque ficavam amarrados. Não pode se expandir, não tinha quem falasse, a pessoa não deixava. O movimento de idéias é importante em qualquer ser humano, você tem a tua idéia que tem que se desenvolver, a sua inteligência que você desenvolve, você age como você puder, não ficar amarrado pelo primeiro, pelo segundo, senão você vai ficar balançando.
Pergunta: O senhor acha que as mulheres também trabalhavam. Principalmente em quê?
Resposta:
Trabalhavam. Por exemplo, na minha indústria, eu tinha quatro mulheres que trabalhavam costurando vassoura. Tinha a prensa, mas quem costurava a vassoura eram mulheres. Elas que separavam a palha, tudo. Elas que faziam esse serviço. A montagem das vassouras era com rapazes de 17, 18 e 20 anos, mas elas trabalhavam.
Pergunta: Como era?
Resposta:
Não, a gente estava lá. Naquele tempo a gente ficava um certo tempo, parece que seis meses. Naquele tempo a gente fazia o que lhe pedia.
Pergunta: Tinha disciplina?
Resposta:
Era disciplina.
Pergunta: Quando o senhor era criança, tinha brincadeiras? E com que tipo de brincadeiras o senhor se divertia quando era pequeno?
Resposta:
Naquele tempo, a brincadeira de homem era mais futebol e basquete, a gente brincava muito no grupo, a gente ficava ali.
Pergunta: Daquele tempo para cá a cidade mudou muito. Prédios e construções, o senhor ficou com alguma tristeza?
Resposta:
Eu tenho lembrança da nossa região, desses prédios antigos.
Pergunta: O senhor é aposentado?
Resposta:
Sou aposentado.
Pergunta: O senhor faz alguma atividade hoje?
Resposta:
A minha atividade. Hoje eu estou administrando uma construção do meu filho, ele é engenheiro e eu sou auxiliar de engenheiro. Mas, hoje em dia tem que quitar todas as dívidas, então eu trabalho lá no setor de compras, o que precisa, vai lá, vai e traz e fica rodando o dia todo.
Pergunta: Netos o senhor tem quantos?
Resposta: Tenho dois, tem o Fabrício e a Micaela, a dupla do barulho.
Pergunta: Como é a relação do senhor com os netos?
Resposta:
Eles são terríveis. As crianças hoje são muito desenvolvidas e dão muito trabalho. Eles só procuram o avô quando precisam de alguma coisa, algum dinheiro, eles vêm procurar o avô deles para falar alguma coisa, mas fora isso, eles levam a vidinha deles. Eles estão numa idade já meio terrível que é a idade de 14 até 16 anos, mas hoje não existe muito respeito pelo próximo, principalmente pessoa de idade. Porque a criança hoje de 4 ou 5 anos já tem autonomia, se vai dar um brinquedo para ela, ela diz: Não quero esse aqui, eu quero aquele lá. Se vai dar aquele outro: Não quero, eu quero aquele outro. Você quer comprar um mais em conta: Não quero. Ou seja, o negócio começa cedo.
Pergunta: O senhor tem quantos anos de casado?
Resposta:
Eu tenho de 42 para 43.
Pergunta: Com a mesma mulher?
Resposta:
Com a mesma mulher até agora. A não ser que haja algum percalço daqui para frente.
Pergunta: Como o senhor vê a polícia?
Resposta:
Olha, existe a polícia e existem também os elementos corruptos dentro da polícia e isso é que tem que aprimorar porque a polícia é um defensor da gente e do povo todo. E não pode sair muito fora da linha, mas o dinheiro compra tudo e isso não pode fugir do futuro.
Pergunta: E o governo do presidente Lula?
Resposta:
Ele luta muito porque você se apega a uma coisa, você se candidata. No PT, PDT, PMDB, PT, PFL, PPB, que são os partidos comunistas, então você se forma com um grupo para poder ganhar uma quantidade de votos, porque cada legenda tem uma quantidade de votos. Então, o que acontece é que você fica prisioneiro daquele partido, por vezes você tem uma idéia boa, mas não deixam vingar aquela idéia. Ele tem muito boa vontade, mas eu tenho a impressão de que não vai muito além.
O que eles querem fazer, nunca vão conseguir, mesmo porque dentro do partido já existe a oposição. A união faz a força. Se você não usar a união para tocar o barco que você dirige, vai ficar uma parada meio dura e é o que está acontecendo com ele, você não pode ir na frente, se esforçar, falar muito, como falou do magistrado, falou do senado, falou da assembléia, falou do Tuma. Recentemente ele falou, quer dizer, é um erro. Não pode, é cada um na sua. Embora seja o presidente, ele tem que guardar certas coisas e não se expandir.
Pergunta: E para a gente finalizar, como o senhor conheceu a sua esposa?
Resposta:
A gente saía em Jaú, e tinha muito baile na escola, então vinha uma vez, vinha duas e dança com essa e dança com aquela, e foi daqui, foi de lá, foi chegando assim. Por exemplo, eu namorei uma pessoa que era quase colega dela. Depois, não deu certo e foi com ela e foi até o final. Se bem que quando eu a namorava, eu tinha outra em Jaú, mas chegou num acordo, quando um não quer, dois não brigam. Eu acho que você tem simpatia por seu lado, mas a simpatia, às vezes, é um pouco transitória. Qualquer coisa que a pessoa faça contra você, você já perde um pouco o entusiasmo e assim foi, e com ela eu fui assim até o final. Fui, namorei, mas terminei com ela.
Pergunta: Para finalizar, o que o senhor gostaria de deixar de mensagem para os jovens e as futuras gerações sobre a sua experiência de vida?
Resposta:
No meu ponto de vista, eu acho que todos os jovens deviam, por obrigação, fazer exército, porque no exército você aprende uma disciplina rígida e que para você, futuramente, traz muitas coisas boas. Porque hoje, a mocidade se perde com muita porcaria, muita droga, e isso é um grande mal. Por isso, o que eu digo aos jovens é que procurem aprender um ofício. Se não quer seguir o exército, entrem no Tiro de Guerra, sejam um pouco patriota. O que nós não temos no país é patriotismo. Está faltando muito patriota no Brasil. Todo mundo quer pender para o seu lado, quer fazer uma coisa que tenha interesse, um casuísmo que não tem tamanho, isso sim é que atrapalha. A mocidade hoje vive um momento de incerteza. Eles não sabem ter uma presteza e isso depende muito da companhia que eles têm. Quando a companhia é boa você vai construindo o certo, senão você se desfaz daquilo e cai na marginalidade. E leva você ao futuro.